Valerian e a Cidade dos Mil Planetas tem mil problemas,
mas ainda assim vale a pena

Valérian e Laureline é um quadrinho francês de ficção-científica daqueles que tem um tentáculo em tudo que você gosta. A obra de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières influenciou até mesmo Star Wars (a revista Pilote “criticou” a obra de George Lucas nos anos 80 com charges que comparavam as obras) com sua capacidade de criar mundos fantásticos que pareciam de fato habitados por seres vivos e não apenas um cenário barato. Nenhuma surpresa, considerando que estamos falando do continente que nos trouxe mundos fantásticos em Aquablue, Incal, Barbarella, Metabarão e muitos outros (incluo Druuna aqui, que explodiu meu inocente cérebro de 10 anos na época).

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é o projeto que Luc Besson passou décadas desenvolvendo e preparando. Com um orçamento de 180 milhões e tecnologia do filme Avatar, o diretor criou um fantástico mundo repleto de elementos estonteantes e o resultado é algo verdadeiramente único. Porém, há ressalvas.

A Cidade de Mil Planetas e nenhum roteiro

Luc Besson é um dos diretores que deu à vida ao movimento Cinéma du Look. Uma escola de direção francesa que tem nomes como Jean-Jacques Beineix e Leos Carax. Os diretores do “le look” foram conhecidos por criar filmes que priorizam o visual e o estilístico ao invés de narrativa. Foi um gênero altamente influente (vide Cães de Aluguel do Tarantino que “empresta” bastante coisa do estilo le look) mas que, como toda prática experimental, incomoda algumas sensibilidades acostumadas com o estilo tradicional de narrar uma história. Aí que entra o primeiro problema de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.

A trama

Valerian (Dane DeHaan) e Laurenine (Cara Delevigne) são dois agentes do governo incumbidos de proteger Alpha, uma gigantesca cidade/estação espacial que é o lar de milhões de espécies alienígenas com direito a diversos ecossistemas para diferentes habitantes. Valerian tem um sonho estranho, envolvendo um planeta pacífico que foi destruído, e aos poucos começa a desvendar uma conspiração escondida pelas forças militares de Alpha. Pense em uma mistura de Avatar com O Quinto Elemento.

Os visuais

Aqui o le look fala alto. Besson e Mézières, o ilustrador original de Valérian e Laurenine, junto com um batalhão de criativos construíram um dos mundos fictícios mais visualmente fascinantes da história do cinema. Cada cena é única, cheia de história, criaturas e elementos fantásticos. Alienígenas exóticos, mercados interdimensionais, energias místicas e uma Rihanna polimórfica que usa sua capacidade de ser qualquer coisa para disfarçar seu passado trágico. Existe um certo prazer visual em ver alguém com a criatividade de Besson trazer à tona todas as suas ideias com os brinquedos certos e a quantidade adequada de grana.

Mas…

Lembram quando dissemos que o le look valoriza visual e não substância? Em Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, Besson está mais interessado em navegar este mundo fantástico e rico que ele criou, esquecendo de lapidar a trama ou dar ao filme um ritmo narrativo confortável. O diálogo é um pouco pesado nos clichês, deixando o personagem Valerian mais como algo “herói de ação #438” do que um personagem com profundidade. Uma lástima considerando que o Star-Lord de Chris Pratt é exatamente o Valerian nos quadrinhos. Dane DeHaan não funciona muito bem no papel, o rapaz atua bem, mas ele ainda passa aquele ar de serial killer que funciona tão bem em filmes de terror.

Por incrível que pareça, Delevigne, que costuma ser um vácuo de carisma, funciona muito bem como Laurenine, trazendo à tona o lado bad-ass da personagem sem sacrificar o tom cômico dos quadrinhos. De resto, a trama é bobinha, mas divertida.

Vale a pena?

Em outro contexto (e talvez em um ano onde a fadiga por blockbusters não estivesse tão brutal), Valerian e a Cidade de Mil Planetas seria o equivalente de Uma Nova Esperança. Um longa que, apesar da história simplista e roteiro um pouco fraco, impressiona e cativa pela criatividade e a proposta de um novo mundo fantástico para ser explorado. No mínimo, funciona como uma experiência educadora para conhecer de perto uma das obras de ficção científica mais influentes do século 20.

Tudo isso sem ver Duna de David Lynch. Legal né?

Até a próxima!

Comentários

ResumoVisualmente impressionante, mas com problemas de roteiro, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas ainda é uma experiência visual única.
3.9
Critérios
Direção
Elenco
Roteiro
Enredo
Observações:
  • Calma gente, o papel da Rihanna não vai mudar a história do cinema. É só uma cantora pop.
  • Herbie Hancock foi uma escolha bizarra.
  • Existe algo fascinante e único nos quadrinhos franco-belgas, ainda bem que Luc Besson entende isso.
Avaliação dos leitores: 0.8(1 Voto)
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