bruce-quinta-dimensao-01Em visita ao Brasil, Tim Burton conversou sobre a inspiração por trás de sua exposição e sua vida como cineasta

A exposição do Tim Burton no MIS se tornou um grande sucesso, com as típicas filas quilométricas e muitas sessões já vendidas. Em meio às inúmeras ilustrações, estátuas, criaturas macabras e humor bizarro é possível vislumbrar a mente criativa de obras como Edward Mãos de Tesoura, Os Fantasmas Se Divertem e O Estranho Mundo de Jack. Recentemente, o diretor esteve no Brasil onde, além de curtir o carnaval do Rio, sentou com a imprensa em São Paulo para discutir sua carreira de cineasta, suas inspirações e o que está por trás da exposição.

Em plena quarta-feira de cinzas, em um pequeno auditório no Museu da Imagem e Som conhecemos ao vivo Tim Burton. Um sujeito de barba por fazer, vestido de forma maltrapilha e com ar de tímido e constrangido que há anos vem conquistando legiões de fãs com sua abordagem única de filmes onde o macabro, o humor e o bonitinho se mesclam para formar uma experiência única. O diretor elogiou bastante o Brasil, onde deixou claro sua admiração pela nossa cultura vibrante e os visuais artísticos que permeiam as ruas de São Paulo e Rio de Janeiro:

“Aqui é incrível. Por onde ando eu vejo grafites incríveis nas paredes. Nunca tinha vindo para o Carnaval, mas a forma como tudo é feito, as cores, as fantasias, a festa, é tudo incrível.” – disse ele sobre o pouco que viu do país em sua estadia. Em tom descontraído, brincou também que as inúmeras ilustrações presentes na exposição nunca foram feitas com o intuito de serem expostas e que foi graças a curadora Jenny He que seus trabalhos vieram à tona. Humildemente, ele mesmo afirmou que espera que seus trabalhos expostos não foram feitos para engrandecer sua própria figura, mas sim, uma forma de inspirar pessoas a buscarem maneiras de explorar suas veias criativas.

“Eu fico muito feliz quando eu vejo as crianças encantadas vendo minhas artes. Acho que a mensagem que eu quero deixar aqui é, se esse cara consegue fazer isso, eu também consigo, basta começar a fazer.” Brinca Burton com suas próprias inseguranças. “Eu gosto destes filmes trash, porque é o que eu gosto de fazer e faço, filmes trash”, disse ele em tom de brincadeira.

Tanto nas artes de Burton quanto em seus filmes, existe um certo amor pelas criaturas desfiguradas e seres abandonados, monstros inocentes que são rejeitados simplesmente por serem estranhos demais para conviver em uma comunidade de “normais”. Diversos filmes de Burton exploram o lado sombrio da vida suburbana americana, mostrando a ferocidade por trás daqueles que se apegam demais à normalidade. “Eu sempre tive muito medo das coisas normais, de ter que arrumar um emprego de verdade, pagar as contas, ser adulto. Acho que isso é o que sempre me deixou mais assustado enquanto crescia”, conta o diretor sobre as inseguranças e ansiedades que servem de inspiração para seu estilo único.

Ele também lamentou não ter conhecido Zé do Caixão (até o momento da entrevista) e que ainda não teve tempo de assistir O Menino e o Mundo, animação brasileira que concorre ao Oscar deste ano. Dias depois da coletiva, o encontro com  José Mojica Marins foi promovido e segundo a Folha de São Paulo, Burton afirmou que “Seus filmes ficaram na minha mente, como se fosse pesadelos. Mas bons pesadelos”, logo após dizer que que estava honrado em conhecer Mojica.

Crédito: Danilo Verpa / Folhapres - Folha de São Paulo.
Crédito: Danilo Verpa / Folhapres – Folha de São Paulo.

Sobre seus projetos fracassados, como o caso de Superman Lives, ele se mostrou um pouco entristecido, comparando a perda de um projeto como a perda de um filho e diz que não é muito interessado em relembrar este tipo de situação. Superman Lives foi um projeto de filme envolvendo Nicholas Cage no papel de Clark Kent/Superman e com roteiro de Kevin Smith (O Balconista). O filme acabou não indo para a frente por diversos motivos na época, entre elas, o fracasso de bilheteria e crítica que foi Batman e Robin. Recentemente, um documentário sobre as ideias e visuais do filme foi lançado com apresentação do próprio Kevin Smith. Burton falou que não tem interesse em assistir devido a tristeza que ele sente por não ter concretizado o projeto.

Quando questionado sobre a possibilidade de dirigir um novo filme de super heróis considerando a popularidade do gênero, Tim Burton brincou que provavelmente não existem mais super heróis para adaptar, mas se pudesse, faria um longa metragem do Stain Boy (Garoto Mancha), protagonista de uma websérie criada pelo próprio diretor.

O papo foi curto mas enriquecedor. Tim Burton é um grande personagem. É interessante poder conhecer um pouco sobre uma das figuras mais famosas do cinema e que por trás de sua imagem existe um homem com anseios, inseguranças e com uma habilidade quase infantil de ainda se maravilhar com o mundo ao seu redor. Talvez, por isso, tantos de seus filmes impactam e conquistam gerações.

Até a próxima!

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