Stranger Things 2 melhora no visual, explora cenários, entrega narrativa redonda e…Só!

Ao final da primeira temporada de Stranger Things, a sensação era de que a história deveria ter ficado ali, perfeita, fechadinha, sem riscos de abrir uma segunda temporada e arruinar com tudo. Não que fosse impossível criar uma sequência à altura, mas sim porque aqueles oito capítulos eram suficientes para aquela história e estávamos plenamente satisfeitos com ela. Obviamente a franquia continuaria, pois fez um estrondoso sucesso. O que imaginávamos é que a franquia poderia seguir os rumos de American Horror Story: os mesmos atores em papeis diferentes e buscando mais stranger things para explorar.

Foi com esse receio que voltamos à Hawkins para acompanhar, trezentos e cinquenta dias depois, a ameaça do mundo invertido sobre a vida de Eleven, Will, Mike, Dustin e Lucas, agora com muito mais apoio de Chief Hopper, Joyce, Nancy, Steve e dos novos personagens Bob e Max. Quase um ano depois dos eventos da primeira temporada, o perigo agora reside na junção dos dois mundos que são explorados tanto nos mais amplos sentidos físicos, com túneis e criaturas em Hawkins, quanto na simbiose que leva Will a fazer parte da coletividade da força maior que o domina.

Em torno disso, Stranger Things 2 se mostra uma metáfor… digo, analogia, à depressão. E é esse o tema que prevalece enquanto heróis buscam a cura de Will que, consequentemente, levará ao desfecho de “salvamos o mundo mais uma vez” sob a cortina midiática e governamental que encobrirá a existência do submundo.

Se tirarmos os elementos fantásticos da série, Will é um garoto depressivo que, pouco a pouco, é consumido por uma enorme sombra até que perde o controle de si e passa a depender de pessoas próximas.  E aí reside a força dessa temporada, tanto no momento em é que invadida pela sombra (depressão), que ignora os inúteis gritos de rejeição da vítima, quanto no processo de combate belissimamente ilustrado com o calor (aqui, literalmente) gerado pela família no momento em que mais ele precisava.

Além das entrelinhas, a temporada traz, novamente, outra trama simples, objetiva e bem escrita que derrapa ao exagerar nas sacadas nerds de Bob quando precisa solucionar problemas e nos momentos cômicos de Dustin (não é reclamação! Podem mandar mais!) que funcionam na maioria das vezes, embora soem forçados vez ou outra com o simples objetivo de explorar o timing cômico do jovem ator.

Algo semelhante acontece com Eleven que, embora fundamental para a conclusão da história, tem o arco menos inspirado da série, pois sua jornada de autoconhecimento e transformação traz momentos dissonantes, especialmente quando a personagem vai buscar respostas e acaba numa cena X-Men: Primeira Classe que chega a ser constrangedora de tão semelhante com o momento em que Xavier ensina Magneto a se concentrar. Ainda assim, todo o episódio que mostra Eleven em uma cidade grande acaba funcionando para referenciar o estilo cyberpunk, o que muda drasticamente a estética e o figurino da personagem para seu ato final, além de reforçar elementos ‘transumanistas’ da série por meio da personagem Eight.

Felizmente, esses foram, pra quem vos escreve, pequenos tropeços narrativos da temporada. A série desenvolve, mais uma vez, conceitos de família, confiança, lealdade e sexualidade que são invariavelmente conflitantes durante a fase adolescente. Perceba, por exemplo, como as relações de confiança entre tantos personagens (namorados, pais e filhos, amigos etc) acabam sendo favorecidas com a sequência final de Dustin e o seu demodog quase de estimação. Ela pode beirar o absurdo, mas está ali pelo objetivo encerrar outros conflitos abertos entre os personagens.

A fotografia e o design de produção evoluem da primeira temporada para a segunda. Agora, porém, as locações parecem estar vivas. Note a sutileza na oscilação das luzes do prédio do laboratório que, diante de uma Eleven hesitante em entrar, sugerem que aquela construção respira. Ou, mais divertido ainda, a disposição dos desenhos de Will colados por toda a parede da casa, que funcionam como um grande mapa do monstro, mas também evidencia a presença da entidade já dentro da casa, praticamente cercando e intimidando quem está ali naquele ambiente tão claustrofóbico quanto os túneis que representa.

Stranger Things 2 não deixa pontas soltas e, ao mesmo tempo, planta muito mais sementes para o futuro do que a temporada anterior havia feito. Deixa de lado o maniqueísmo ao retratar órgãos públicos e o laboratório (um grande erro na temporada anterior) e mostra maturidade ao inserir uma aventura fantástica com improváveis e anônimos heróis .

Comentários

ResumoCrianças fofinhas, monstros estranhos e milhares de referências à década de 80!
3.8
Critérios
Elenco
Direção
Montagem
Trilha Sonora
Roteiro
Observações:
  • derrapadas na montagem quebram o ritmo de alguns episódios
  • soluções forçadas para alguns problemas apresentados enfraquecem o roteiro
  • arco cliché da Onze deixa claro a intenção inicial de que ela teria morrido na primeira temporada
  • toda produção que referencia os anos 80 vai ter vilão chato, branco marombadinho metido a badass com mullets?
Avaliação dos leitores: 9.8(1 Voto)
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