A violência de O Justiceiro assusta, porque ela é bela

A segunda temporada de Demolidor foi dividida em dois núcleos. O segundo, e mais fraco, tratava da batalha de Matt e Elektra contra o Tentáculo, uma ordem secreta de ninjas com um objetivo vagamente definido que envolve especulação imobiliária, algo que tem uma frequência assustadora em séries da Marvel na Netflix. Não funcionou, ninjas deixaram de ser legais em algum momento entre ’93 e ’94, e a série apenas entregou uma versão sem sal e, francamente, meio tosca dos antagonistas. Uma tradição que Defensores carregou adiante com louvor. Mesmo assim, a primeira parte da temporada foi um soco no peito, especialmente por causa da introdução de Frank Castle, o Justiceiro.

O personagem serviu bem mais do que ser apenas o inimigo para o herói. Era um retrato verdadeiramente sombrio do vigilantismo, uma figura capaz de eliminar o elemento criminoso com finalidade brutal e eficiente. Alguém que não se ilude com quesitos como moralidade e heroísmo. Em suma, Frank Castle era a figura perfeita para desafiar a visão ingênua de mundo do Matt. E rapaz. E deu muito certo, sustentado por uma atuação assustadora, porém humana, de Jon Bernthal, o personagem foi uma das melhores adições ao universo Marvel na Netflix. Tanto que O Justiceiro ganhou sua própria série.

O Justiceiro, a série

Frank Castle encerrou sua missão. Todos os criminosos das três gangues que estavam envolvidos na morte de sua família foram mortos. Agora ele passa seu tempo vivendo sob uma nova identidade e trabalhando em uma obra. Ele é abordado por um analista do NSA chamado David Lieberman que revela informações sobre uma operação clandestina em Kandahar no qual Frank fez parte. Por ter desvendado informações sobre ela, David teve que abandonar sua família, fingir sua morte e assumir a alcunha de Micro. Ele sabe que para solucionar a conspiração, vai precisar de alguém com uma capacidade descomunal para violência, e dá um jeito de entrar em contato com Castle.

Aos poucos, Frank começa a desvendar que foi manipulado à participar de uma missão ilegal no Afeganistão e que o fatídico dia que tomou sua família foi uma tentativa de queima de arquivo para que a verdade não viesse à tona. Ao longo de 13 episódios, o Justiceiro e Micro embarcam em uma jornada que revelará muita sujeira e muito sangue.

Raiva, violência e como justificar

Naturalmente, o tema da violência permeia todas as camadas do universo de O Justiceiro. Apesar de não inovar na abordagem ou trazer qualquer tipo de comentário diferente, é fascinante assistir diferentes facetas do mesmo pensamento interagindo entre si e como isso mexe com a proliferação de diferentes ideologias na sociedade. Violência em si não é um meio, mas  um fim. Um fim para projetar e justificar sensações de raiva que não podem ser sanadas via meios racionais.

O próprio Frank é um soldado, uma máquina de matar que se esconde por trás de uma figura de masculinidade e agressão extrema para jamais ter que processar a morte de sua família. Para ele, não existe processo de luto, não existe aceitação. E se manter com raiva constante, sempre à busca do próximo alvo é um alento. Além de Castle, outros soldados populam o mundo do Justiceiro. Alguns, completamente devastados pelo stress pós-traumático da guerra, se enxergam em um mundo onde são totalmente ignorados apesar dos belos discursos sobre controle de armas e pacificação. Outros, como Billy Russo, um dos amigos de Frank, enxerga a guerra como uma oportunidade de ascensão social e uma forma de conquistar tudo que lhe foi privado já que ele é fruto do sistema de orfanatos americano.

Violência é um ciclo vicioso que só produz mais violência, mas aqueles no olho do furação não conseguem enxergar uma saída. A raiva, o ódio, o desprezo, tudo vira combustível para mover um sistema que enriquece com a proliferação de armas, companhias militares privatizadas e operações clandestinas. Acompanhamos tudo isso sob o olhar de Lieberman que é forçado a sobreviver e ao mesmo tempo controlar os impulsos ultra-violentos de seu novo parceiro.

Vale a pena? Jon Bernthal criou uma versão do personagem que não nega suas raízes, mas o humaniza o suficiente para torna-lo interessante. É fácil interpretar uma máquina de matar fria e implacável, o verdadeiro desafio é interpretar o personagem de forma que queiramos acompanhar sua jornada durante 13 episódios. As cenas de ação são as mais violentas já produzidas dentro da Marvel, todas belamente criadas e alguns episódios usam jogadas brilhantes de roteiro para manter a narrativa andando.

Como já é um pouco praxe de séries da Netflix, é necessário um pouco de insistência. Este formato é feito para binge watching, então a série demora um pouco para engrenar, mas quando a narrativa encontra seu eixo, é uma experiência marcante. Especialmente porque no final de toda a carnificina, nem mesmo o próprio Justiceiro é capaz de encontrar uma justificativa para o massacre, e aprendemos que no fim, o soldado que jamais conseguiu voltar para casa, é o próprio Frank.

Até a próxima!

Comentários

ResumoFrank Castle une forças com Micro para desvendar os segredos por trás da operação clandestina que resultou na morte de sua família.
4.5
Critérios
Direção
Elenco
Roteiro
Enredo
Observações:
  • Nunca uma música do Tom Waits foi usada com tanta eficiência.
  • Ou do White Buffalo.
  • O personagem Lewis Wilson, interpretado por Daniel Webber, é uma das criaturas mais fascinantes já introduzidas neste tipo de série.
Observações:
  • Sim, o Billy Russo é *AQUELE* Billy Russo.
Avaliação dos leitores: 4.8(1 Voto)
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