Liga da Justiça tem seus méritos,
mas não atinge todo seu potencial

Chegamos ao apogeu geek. De todas as infinitas variações do “multiverso”, nossa infinitésima parcela da realidade é uma daquelas abençoadas com adaptações cinematográficas de ambos os maiores times de super heróis da história dos quadrinhos: Os Vingadores e Liga da Justiça. O ano de 2017 consagra a chegada do maior e mais icônico grupo de personagens da DC Comics ao cinema. Será que deu certo?

O mundo precisa de heróis

O planeta ainda sofre da falta de esperança deixada pela morte do Superman (Henry Cavill). Bruce Wayne (Ben Affleck), comovido pelo sacrifício do herói no final de Batman vs Superman, decide reunir um grupo de indivíduos com habilidades únicas para ajudar a impedir a próxima ameaça à Terra. Para isso, já conta com a ajuda da Mulher Maravilha (Gal Gadot).

O vilão da vez é o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), que pretende reunir três artefatos chamados Caixa Mãe para dominar o planeta em nome de seu mundo natal e um misterioso ser chamado Darkseid. Cada item foi escondido por uma das três tribos da Terra: os Homens, os Atlantes e as Amazonas. Para ajuda-lo, ele conta com um exército de criaturas conhecidas como Parademônios que têm a habilidade de farejar medo.

Agora o time não só precisa se preparar, mas superar suas diferenças e chegar a conclusão que a única forma de derrotar o Lobo da Estepe é trazendo de volta alguém que frequentemente é confundido com um pássaro e/ou um avião.

Erros do passado, acertos do presente, problemas no futuro

Dizer que a trajetória da DC no cinema é inconsistente, é um eufemismo. Com exceção de Mulher-Maravilha (que se tornou essencial para entender o gênero de super heróis no cinema), todos os filmes do chamado DCEU foram divididos entre as opiniões. Apesar do sucesso estrondoso de Diana Prince, nem todas as lições foram aprendidas em tempo para o filme Liga da Justiça.

Deixando de lado o tom sombrio e melancólico que acompanhou as tramas de Homem de Aço e BvS, Liga da Justiça tenta trazer a esperança para o mundo. Os heróis são mais alegres, as piadas fazem parte do repertório e até mesmo o Cavaleiro das Trevas consegue arrancar boas risadas.

Tomando uma página do caderninho de Patty Jenkins, o longa trabalha em uma escala épica que a concorrência nunca atingiu. Assistimos uma batalha de tempos imemoriáveis onde as forças da Terra (com direito a algumas participações incríveis de heróis) enfrentam o Lobo da Estepe. Acompanhamos as Amazonas em Themyscira, os Atlantes em Atlântida e diversas localizações pelo mundo que agregam bastante à estética de quadrinhos que um estúdio como a Marvel sofre para desenvolver quando a história não vai para o espaço sideral ou Asgard.

Mas não é só de visual que se cria um filme e aí que, infelizmente, Liga da Justiça perde um pouco seu fôlego. Mesmo com um catálogo de filmes suficientes para construir o DCEU, o roteiro de Liga corre para inserir mais informações. O primeiro ato é truncado e desconexo, apresentando a jornada de Bruce e Diana pelo mundo para reunir os heróis, o paradeiro de Lois Lane, a chegada do Lobo na Terra, o significado das Caixas Mãe, a situação familiar de cada futuro integrante do grupo e mais diversos pequenos momentos que demoram um pouco para se conectar à trama geral.

A dinâmica da equipe também deixa um pouco a desejar. Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Ciborgue (Ray Fisher), apesar de poderosos, nunca agiram como heróis e precisam ser orientados, mas o filme nunca dá espaço para deixar cada um se descobrir e chegar a uma conclusão satisfatória. Para chegar às tão desejadas trocas de farpas inofensivas e piadinhas insossas, os novos membros da Liga se tornam unidimensionais. Ciborgue é sempre taciturno, Aquaman gosta de tirar sarro do uniforme do Batman e o Flash é um Sheldon Cooper com super velocidade e coordenação motora de Bridget Jones.

Esta necessidade de manter o tom do filme leve faz com que Liga da Justiça tropece nos mesmos problemas dos filmes da Marvel. Ao manter os personagens sempre se divertindo, o antagonista fica menos ameaçador. Longe do final do segundo ato de Os Vingadores, onde cada herói é forçado a confrontar a derrota recente, supera-la e ir para o confronto final, o time de Batman e companhia limitada superam cada perda com uma indiferença quase cínica. Com esta falta de reconhecimento do perigo iminente, o coitado do Lobo da Estepe passa longe de ser uma grande ameaça.

O filme obriga que cada momento de realização emocional seja feito longe do grupo. Uma situação particularmente precária quando o retorno de um certo kriptoniano tem boa parte de sua construção feita em um núcleo narrativo separado que tira um pouco o senso de urgência do conflito que está por vir.

E o vilão?

Admitimos, o Lobo da Estepe é um vilão com potencial. Por ser uma criatura relativamente desconhecida do público leigo e fruto de uma complexa mitologia espacial criada pelo lendário Jack Kirby, seria um personagem com campo fértil para a criatividade. Porém, a falta de clareza em seu propósito (o filme é bem desinteressado em minimamente explicar quem são os Novos Deuses, o Quarto Mundo, Apokolips e Darkseid) e um visual que não convence, tiram as garras do que deveria ser uma força apocalíptica de destruição.

E no fim…

Apesar desta crítica, infelizmente, ser mais amarga do que havia originalmente concebido, Liga da Justiça tem seus momentos. O Superman que surge aqui é o herói que admiramos nos quadrinhos, altruísta e bem humorado. Algumas das batalhas e aparições de personagens genuinamente empolgam, o que compromete o impacto é o tecido que conecta estas cenas, que tira boa parte do peso emocional necessário, que é trocado pelas já cansadas piadinhas de Joss Whedon.

E no fim, em uma tentativa de eliminar um pouco da sobriedade niilista do filme anterior, capturar um pouco da energia renovadora de Mulher-Maravilha e emprestar elementos criativos de seu maior concorrente, Liga da Justiça sai da mistura faltando um elemento crucial: voz própria.

Até a próxima!

PS.: O vilão é um deus com elmo de chifre que usa um cubo para abrir um portal no céu para chover um exército alienígena voador. #ColouNaProva

Comentários

ResumoComo assim? É Liga da Justiça. O que mais você quer saber?
3.5
Critérios
Elenco
Direção
Roteiro
Enredo
Observações:
  • É fascinante como o Weta Digital economiza orçamento. Primeiro reutilizaram os Trolls de Senhor dos Anéis para fazer o Apocalipse, agora reutilizaram o Azog para fazer o Lobo da Estepe.
  • Sim, existem cenas pós-créditos. Uma é uma cena bem icônica dos quadrinhos por sinal.
  • O flashback do passado da DC neste filme daria um filme melhor que Liga da Justiça.. E não só por causa de uma participação especial.
+ observações:
  • Gal Gadot continua sendo a melhor coisa do universo DC.
  • Estão falando que acharam o Ben Affleck desconfortável neste filme. Particularmente não achei.
  • É legal ver o que os bat-brinquedos podem fazer para compensar a falta de super poderes.
Avaliação dos leitores: 6.7(2 Votos)
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