Uma Dobra no Tempo se perde na história, mas tem uma boa heroína

Uma Dobra no Tempo é baseado na obra da autora Madeleine L’Engle, um clássico da literatura de ficção científica para jovens adultos. Apesar de extremamente popular nos EUA desde a década de 60, no Brasil segue desconhecido. Esta é a segunda vez que a Disney tenta adaptar o material. Desta vez, quem assume a direção é a diretora nomeada ao Oscar, Ava DuVernay. O longa também marca o primeiro longa com orçamento de mais de 100 milhões de dólares dirigido por um mulher negra.

A temática do livro, por muito tempo, sempre foi considerada uma obra extremamente complexa de adaptar para outros meios. Com um material complexo destes, será que Ava acertou?

A história de Uma Dobra no Tempo

Meg (Storm Reid) é uma jovem inteligente, entusiasta de física e apaixonada por ciência em geral. Seu pai (Chris Pine) é um matemático que tenta, ao longo de sua carreira, provar que é possível viajar no tempo e espaço. Após sumir por  quatro anos, surgem três “Senhoras do Tempo” – seres cósmicos de grande poder – para ajudar Meg a reencontrar e resgatar seu pai.

A técnica de “tesserar” em Uma Dobra do Tempo

Toda a base da história de Uma Dobra no Tempo é sobre viajar no tempo e espaço. A problemática do filme não é a viagem do tempo, e sim Meg acreditar nela mesma de que ela é capaz de realizar tal desafio. A jovem precisa aprender a técnica de “tesserar”, que é uma espécie de “invocação” de dimensão paralela onde o viajante visualiza para onde quer ir e consegue se transportar até lá.

Acompanhada de seu irmão Charles Wallece (Deric McCabe) e do amigo da escola Calvin (Levi Miller), eles embarcam para um planeta onde todo mal do universo está concentrado e mantém seu pai em uma espécie de cativeiro.

Perdido no tempo e espaço

Até o momento onde as Senhoras do Tempo, Sra. Quem (Mindy Kaling), Sra. Quequeé (Reese Witherspoon) e Sra. Qual (Oprah Winfrey); conseguem ajudar os três viajantes na aventura, o longa tem uma estrutura coesa. As coisas desandam, quando as três personagens saem da história (por motivos…) e Meg precisa explorar este novo planeta ao lado de Calvin já que seu irmão mostra os primeiros sinais de índole corrompida pela força do mal.

Para piorar, a jornada de saída do planeta requer que Meg domine a técnica de teressar e precisa manter seu coração firme no que é bom, amável e justo para tal. Como a personagem passou quatro anos sem pai, ela duvida de si mesma e precisa voltar a acreditar em si.

O momento “Disney”

Diálogos forçados, vindos da Sra. Qual, praticamente forçam a personagem a ser algo que ela não quer ser, mas quando Meg descobre suas forças e firma suas intenções no poder do amor, ela consegue finalizar sua jornada. Esta é a única mensagem verdadeiramente positiva para o público do longa, afirmado pela própria diretora Ava DuVerneay, ser um projeto para crianças de 8 a 12 anos.

A “desdobra” do Tempo

Como filme, não funciona. Falta motivação em todos os personagens. Por mais que Meg não acredite no sumiço ou suposta morte de seu pai, mesmo quando a jovem sabe que ele está vivo, ela demora para “virar a chave” e acreditar que ela conseguirá trazer eles de volta para casa.

Charles é outro personagem pessimamente apresentado. É ele quem tem conexão com as três senhoras, algo não explicado, e todas aparecem no filme sem uma explicação plausível.

Outro ponto é que cada Senhora tem uma característica e um “poder”, elas dão à Meg ferramentas para encarar a jornada, mas não entendemos os motivos e nem o por quê de Meg ser “a escolhida” no lugar de Charles que já tinha contato com elas por… motivos…

A intenção da diretora é clara, mas…

Calvin é outra peça do tabuleiro jogada. O jovem demonstra interesse na jovem que, por ser diferente das meninas populares da escola, ela não acredita em seu interesse amoroso. Meg é uma menina sem pai, afro-descendente, de estilo alternativo e muito inteligente. Estes são elementos pontuados o tempo todo ao longo do filme. Esteriótipos são reforçados que não deveriam ganhar ibope e apenas serem naturais.

Entendemos que o roteiro se preocupa em firmar uma mensagem positiva sobre menino loiro de olhos claros se apaixonar por menina negra de cabelo afro, mas existe limite até onde o elemento agrega à trama e não se torna pedante. Entendemos que ostracismo racial é um problema série que sim deve ser discutido, mas ainda reforçamos que filmes de fantasia para crianças, deveriam priorizar o escapismo e a diversão.

Mensagem final confusa

Por mais que isso trouxesse ao universo de Uma Dobra do Tempo uma diferenciação poderosa e emponderada em tempos onde a inclusão é alvo da mídia, aqui o ponto ficou desfavorável para a mensagem final. Meg é colocada em situações desagradáveis de questionamentos sobre não acreditar em si e de aceitar. Ou curtir que este sentimento amoroso por Calvin seja genuíno.

O que Pantera Negra fez e faz pela representatividade com seus personagens, Uma Dobra do Tempo precisa reforçar os questionamentos pejorativos, posicionando o conflito de forma descarada para depois deixar uma bela mensagem. Por mais que as crianças não consigam compreender isso de cara, os adultos entenderão.

Não precisamos de mais filmes forçando o tema, o diálogo precisa existir, porém de forma natural.

Ava DuVernay e sua Oprah Winfrey gigante

A direção do longa desaponta. Primeiro por que ficou muito clara a necessidade de inserir a Oprah Winfrey com destaque. A líder das Mulheres do Tempo aparece o tempo todo em um tamanho maior do que as demais, a colocando como a mais “experiente”. Algo totalmente irrelevante para trama, servindo apenas como um destaque visual pra assegurar a atenção da audiência.

Outro ponto é a constante câmera na cara dos atores. Método de direção cansativo que temos em outro filme da Disney, Malévola.

CGI

Ava DuVernay ainda não tem a bagagem para lidar com CGI como Jon Favreau comprovou em Mogli – O Menino Lobo e em vários momentos vemos os atores apenas olhando para a câmera sem um direcionamento técnico sobre o que eles de fato estão interagindo.

Há também uma necessidade de valorizar o figurino e maquiagem das Senhoras do Tempo que cansa e não agrega em nada.

Vale a pena?

Não. O filme é desestruturado e sua resolução insossa. Apesar do visual extremamente colorido e dos figurinos elaborados, falta carisma nas personagens. Não só em Meg, a nossa heroína/A Escolhida forjada pela trama por ter bom coração. Mas também das três Senhoras do Tempo que deveriam funcionar como as principais inspirações e motivações de Meg. Chris Pine tem um papel pequeno e não tem tempo suficiente em tela para ser intrigante o suficiente.

As crianças ficarão certamente encantadas com os universos coloridos em tela, mas a essência da mensagem e da trama passará despercebida, tornando Uma Dobra no Tempo em mais um longa da Disney de temática “adulta” e visual colorido. Não que isso seja necessariamente ruim, a fórmula funciona, mas o projeto não tem fôlego para ser ao menos lembrado.

Uma Dobra no Tempo estreia dia 29 de março nos cinemas.

Küsses,

Filme: Uma Dobra no Tempo

Onde: Cinema

Lançamento: 29 de Março de 2018

Direção: Ava DuVernay

Elenco: Storm Reid, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Mindy Kaling, Chris Pine

Gênero: fantasia, família

Classificação Etária: Livre

Comentários

ResumoUma jovem precisa viajar no tempo e espaço para resgatar seu amado pai.
1.8
Critérios
Direção
Elenco
Roteiro
Produção / Fotografia
Observações:
  • A personagem da Mindy Kaling tem uma forma específica de interagir com as as pessoas e isso é totalmente jogado.
  • Sentimos as piadas forçadas e/ou refilmadas e/ou jogadas no filme após a primeira edição. Péssimo!
  • Chris Pine...Por que?
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