Depois de quatro livros e prestes a ganhar mais um filme, quem sabe conseguimos responder a pergunta que não quer calar: porque raios Cinquenta Tons faz sucesso?

Há uns anos atrás entrar no metrô era ver uma exposição de livros estampando o nome Cinquenta Tons de Cinza. Eram mulheres maduras, outras nem tanto, mas uma coisa tinham em comum: todas fascinadas pela história do milionário e da doce estudante.

Eu já tinha passado vez ou outra pela sinopse na internet e nem dei trela. O livro, lançado originalmente em 2011, só foi fazer sucesso mesmo algum tempo depois. Mas, ao ver tanto buzz a respeito dele me rendi #confesso. Assim como a mídia. Mas, ao mesmo tempo que uns elogiavam, outros massacraram. E o primeiro filme não ajudou a melhorar a opinião das pessoas…

Literatura erótica não é o mesmo que putaria

Mas, ok! Temos um livro com temática erótica e, francamente, qual o problema com isso? Cenas de sexo? Alô! Em romances picantes das séries Sabrina, Júlia e afins são beeeem mais explícitas. Muito mais mesmo. A diferença? Cinquenta Tons de Cinza acabou caindo nas graças de uma editora grande com circulação e investimento maior que os tais romances de banca.

E mais: não apenas um romance erótico, mas na onda do sucesso de Crepúsculo. Afinal, as aventuras e desventuras de Christian e Ana nada mais são do que uma versão picante de Edward e Bella, um casal para lá de insosso e sem sex appeal. E tem a questão da dominação e submissão, a entrega, o bater e apanhar. Donas de casa escandalizadas liam e viam suas fantasias em páginas inofensivas. Não tem problema um chicote, é só uma personagem…

O mesmo que muitas personagens de histórias em quadrinhos, leia-se Arlequina. Depois da caracterização de Margot Robbie o mundo ficou aos pés dela. E a discussão sobre relacionamento abusivo voltou à tona. Mas pera: onde essas discussões estavam quando Cinquenta Tons foi lançado? Pois é. Parece que quando tudo está no campo literário, em páginas inofensivas, tudo é ok. Tudo é liberado. Ninguém se lembra do Bento julgando a Capitú, sem nem saber o que tinha rolado? Mas quando vão para as telas… O povo começa a piar.

“Cadê a Lei Maria da Penha?”

“Aceita apanhar só porque é rico. Se fosse pobre ia para a delegacia.”

“Onde já se viu, depois de tantas lutas das mulheres por igualdade aceitar ser submissa?”

Esses são apenas alguns dos argumentos das pessoas. Todos adoraram Cinquenta Tons de Cinza, esperaram ansiosamente por Cinquenta Tons Mais Escuros e torceram em Cinquenta Tons de Liberdade. Mas sempre tem aquela parcela que ama ser do contra…

Uma fanfic de sucesso

Crepúsculo fez muito sucesso. Principalmente entre adolescentes, o público-alvo de Stephanie Meyer. E, depois de alguns milhões vendidos, veio o mesmo bafafá sobre a personagem insossa Bella. Simplesmente porque as pessoas AMAM ser do contra. Quando Cinquenta Tons veio com uma temática que sai do mundo baunilha, corriqueiro, “normal”, uma fantasia, é sempre válido dar pitacos e atacar. Mas os romances Júlia e Sabrina continuam com vendas, não é mesmo? E não vejo ninguém falando nada…

Mocinhos e seus tipos: desde o mais “nhé” até o mais “tcham”

Mas voltando para o foco da discussão! Romances assim sempre seguem uma receita: mocinha se apaixona por mocinho, passam por dificuldades (uma terceira parte, um ciúme, um problema com a família…), sexo e finalmente final feliz. Temos os mocinhos:

Príncipes: que aparecem como um conto de fadas para libertar a mocinha de uma situação complicada;

–  Açucarados: são perfeitos. Fazem tudo direitinho, acertam nas escolhas, mas normalmente a mocinha é chata;

Machões: que acham que a mocinha deve algo e que merecem um tratamento rude por algum erro do passado ou da família (a famosa vingança), são controladores, perseguem mesmo, ou simplesmente ignoram na maior teoria Jane Eyre: ignore para aflorar o interesse alheio;

Ogros: aqueles que só sabem fazer a mocinha de gato e sapato, mas mesmo assim elas se apaixonam;

Gregos e italianos: homens duros, mas com coração de ouro, só que só mostram isso no final do livro. Sequestram (os Machões entram aqui também), chantageiam, abusam da boa vontade da leitora em tentar aceitá-los;

Bad boys: amáveis e da pá virada, unem o lado negro da força com força, doçura e uma boa de protecionismo.

Sabe aquela máxima ideia de que existem mulheres para casar e mulheres para se divertir? Nós também temos algo similar: nós gostamos de uma boa dose de bad boys. Os certinhos são ótimos para a realidade, mas na ficção o melhor mesmo são os mais perigosos. É a síndrome de achar que podemos mudar alguém com o nosso amor…

Sei…

Christian Grey tem vários elementos explorados nos mocinhos dos romances. Com um plus: ele é baseado em Edward Cullen, um vampiro neurótico, possessivo e com tendências de perseguição. Volte nos tipos de mocinho e veja se consegue delimitar quais ele poderia se encaixar…

Partindo disso, faz sentido Ana ficar fascinada por Christian. Afinal, é um cara que gosta dela (que tem a Síndrome do Patinho Feio, muito comum nas heroínas de romances), que tem pegada, uma aura de mistério e… Aquela vulnerabilidade que as heroínas A-DO-RAM trabalhar e consertar. Ter dinheiro é um plus.

Nos livros, o sexo é só um plano de fundo para embalar o romance. Uma maneira de trazer mais sensualidade ao relacionamento morno de Edward e Bella. O sadomasoquismo foi só uma maneira de encaixar o sexo. A problematização. TODO ROMANCE PRECISA DE UMA PROBLEMATIZAÇÃO. Ponto.

O sexo é o que costura a escrita de E.L. James (que nem é tão boa assim. Um curso de redação iria bem a calhar lá), mas não deixa de ser um romance. Mocinha patinho feio encontra o mocinho salvador. Mocinho bad boy, controlador, machão, com problemas de autoestima e de infância. LÓGICO que ia dar match!

Todo mundo fica falando para mim: mas tem a sexualização, tem a submissão, tem isso, tem aquilo… E eu sempre respondo: é um romance. Eu já li muitos romances. Inclusive aqueles já citados de banca. Leio desde que me entendo por gente (sim, sou precoce) e não vi o motivo para tanto bafafá com Cinquenta Tons de Cinza. É um romance picante. Nada mais. Silvia Day fez pior, na minha opinião, e não tem passeata contra ela.

O que eu não aceito e não consigo defender é o filme. Prato cheio para os críticos de plantão.

Cinquenta Tons Mais Escuros e contraponto na vida além das páginas

Em Cinquenta Tons Mais Escuros, Christian quer Ana de volta e mostra para as mulheres do metrô que sim, é possível mudar um homem. Por si só já dá para ver que é ficção.

As cenas de sexo começam a ficar com uma pegada mais romântica e florzinha, apesar de no trailer mostrarem mais a  parte “super sensual, ninfomaníaca e fetichista”. Pois sim, não tem muito de BDSM lá, mas muito fetiche interessante!

Os filmes não ajudam a reforçar o clima de romance. Mesmo que Christian seja um psicopata que persegue, contrata detetive particular e controla todos os movimentos de Ana, coisa super comum nos romances água com açúcar, já que o mocinho tem que ter defeitos que possam ser consertados pela mocinha, ainda é um romance. Senão não tem graça. Tem que ter a redenção. Sem pisada na bola não tem perdão.

O primeiro roteiro pecou feio e neste novo tem um outro roteirista assinando: o maridon da E.L. James. Até a direção é outra, tentando salvar as indicações ao Framboesa de Ouro. Mas, se insistirem em erotizar demais 50 Tons Mais Escuros, não tem muito o que fazer. Mas, porém, contudo, entretanto, são justamente as cenas de sexo que mais instigaram as leitoras (e ouso dizer alguns leitores homens), a liberdade de ler descrições sensuais sem ter que ajoelhar no milho em penitência depois. É a catarse sexual: não faço na minha vida (pelos motivos que quiser), mas vivo isso por meio da narração literária. É quase o mesmo com filmes pornôs – nada daquilo existe na vida real. Mas as pessoas ainda assistem e gostam.

Cinquenta Tons ainda brinca com a realidade, já que o sistema de dominação e submissão realmente existe. Dá um tempero a mais e atiça o leitor, já que é uma coisa ser impossível e outra algo tangível. As vendas de acessórios aumentaram bastante depois disso.

Essa proximidade com a realidade embasa ao mesmo tempo que afasta, dando assim significado pleno de catarse. Quantas pessoas saiam matando depois de um espetáculo na arena Coliseu, na Roma Antiga? É fato que a quantidade de violência e mortes davam uma freada durante a temporada dos gladiadores. Não posso matar, mas posso me realizar através da morte na arena, como se eu mesma tivesse matado. Eu não transei com Christian Grey, mas pela leitura eu me senti realizada, pude me colocar no lugar de Ana e fazer algo que seria, talvez, impensável: me submeter.

Cinquenta Tons de Cinza, Mais Escuros e os demais são eróticos, mas ainda assim romances. O romance foi a peça fundamental (junto com um roteiro merda) que fizeram do primeiro filme um fracasso (não em vendas, porque muita gente quis ver o que tinha lido), pois esqueceram dele. Eu já li muita, mas muita literatura erótica, a maior parte bem melhores que a trama de Grey e Ana, inclusive com o mesmo viés. Bem escritos, estruturados, com uma problematização mais relevante, tornando a obra um sucesso. Não estão entre os mais vendidos e nem têm adaptações cinematográficas, mas ainda assim dão de 10 a 0 em Cinquenta Tons de Cinza. Mas esse nem é um texto sobre a qualidade da quadrilogia, que não é mesmo grande coisa.

Cinquenta Tons Mais Escuros chega essa semana aos cinemas e estamos torcendo pela melhora. E desta vez temos mais um ingrediente na problematização: Leila, uma ex submissa meio louca.

Ansiosos?

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