Por trás da ação e das conspirações,
existem filosofias fascinantes em Ghost in the Shell

Eu sei, eu sei. Essa modinha de “A Filosofia por Trás de <algo popular de entretenimento>” começou com Matrix e infestou as livrarias com um gênero literário de qualidade tão duvidosa quanto “fan fic de Crepúsculo, mas com tapinha na bunda”. Felizmente, existem sim algumas sagas que merecem o devido crédito quando conseguem inserir uma boa dose de neurônios por trás dos socos e chutes. Com A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell em exibição nos cinemas brasileiros, vamos explorar alguns conceitos filosóficos por trás da obra de Masamune Shirow.

Ei, pelo menos saindo da sessão você vai conseguir impressionar seus amigos ou interesse amoroso.

Ghost in the Shell ou o “Fantasma da Máquina”

O título que evoca um certo senso de mistério, e causa um pouco de taquicardia aos tradutores brasileiros que precisam divulgar o filme para um público que não conhece o mangá, tem um significado complexo. No universo da série, um ghost (fantasma em inglês) é o nome dado à consciência da pessoa afinal, trata-se de um futuro onde o corpo humano orgânico cada vez mais é aprimorado com implantes cibernéticos.

Originalmente criado por Gilbert Ryle, o termo Fantasma da Máquina foi originalmente criado como uma crítica à dualidade cartesiana. René Descartes defendia que existem duas fundações: corpo e mente. Basicamente ele acreditava que uma mente não poderia existir sem um corpo, e um corpo é incapaz de pensar. Vemos isso em Ghost in the Shell. Para Motoko Kusanagi preservar seu ghost em um corpo inteiramente artificial, ela precisa manter uma presença sensorial idêntica a um corpo orgânico. Sem esta interação instintiva com o mundo, a consciência da protagonista se deterioraria, pois a mente precisa entender que ela existe para continuar existindo.

Entra Arthur Koestler, um autor húngaro-britânico que concorda com Ryle e escreve um livro chamado O Fantasma da Máquina. Nele, ele elabora que o que conhecemos como a mente não é uma entidade independente, mas sim fruto de uma evolução contínua sobre mentes primitivas e experiências contínuas de estímulos linguísticos, habituais, sensoriais entre outros. A mente é dependente do corpo, e não uma entidade separada. E falando em corpo…

O corpo humano e o Paradoxo do Navio de Teseu

Nenhum textão sobre filosofia é complexo sem uma boa dose de Grécia Antiga para salpicar a discussão. O Paradoxo do Navio de Teseu é um estudo de pensamento antigo. Ele funciona assim: os atenienses preservam o navio de Teseu e toda vez que uma peça quebra, eles trocam por uma nova. Cem anos depois, não existe mais nenhuma peça original. Neste caso, o navio ainda é o navio de Teseu?

Ghost in the Shell explora esta questão no sentido de: será que Kusanagi ainda pode ser considerada humana? Afinal, seu corpo inteiro é artificial. Apenas sua mente ainda é “original”. E falando em mente…

A mente e evolução da inteligência artificial

Se a mente pode ser fruto de algo que não seja um corpo, o que exatamente é uma “mente”? O filme de 1995, traz como “vilão” o misterioso Puppet Master, também conhecido como Projeto 2501. Ele é um programa que evoluiu até se tornar uma nova espécie de inteligência artificial após entrar em contato com o fluxo de informação da rede. É claro que como uma nova espécie, ele cria um corpo para funcionar dentro das leis da humanidade. 2051 cria um corpo artificial semelhante ao de Kusanagi para pedir asilo com a Seção 9.

O grande dilema do Projeto 2501 é que seu maior desejo é ser reconhecido como uma nova forma de vida, porém, lhe falta um elemento essencial: a capacidade de se reproduzir. Ele pode até mesmo criar uma cópia de si mesmo, mas isto não o constitui mais do que um clone. Sua ambição é criar um “filho”, uma nova iteração de sua espécie, que possa resultar em uma gradual evolução rumo à constante adaptação da espécie. Por isso que ele anceia em se fundir com Motoko e criar algo novo.

O despertar da nova consciência

Ghost in the Shell

Não presentes nos filmes, mas no mangá e na série, a Seção 9 usa em campo os Tachikomas e Fuchikomas. Estes mini-tanques contam com inteligências artificiais mais flexíveis e sem as restrições típicas. Isto os tornam mais adaptáveis às situações inesperadas no campo. Apesar de mais flexíveis no campo de batalha, a Seção 9 precisa monitora-los com cautela para evitar que desenvolvam traços emocionais indesejados ou perigosos.

É possível observar em Ghost in the Shell alguns momentos onde os Tachikomas discutem entre si questões existenciais complexas e como eles se relacionam com a realidade percebida. Seu olhar é o de uma criança que, apesar dos debates filosóficos, são feitos de forma inocente. A ideia por trás deste conceito é analisar a origem da individualidade e se esta pode sobreviver quando o fluxo de informação é controlado ou paralisado por outros.

Isto entre outros inúmeros pensamentos existencialistas tornam Ghost in the Shell em uma das obras mais fascinantes entre os mangás. A própria série Ghost in the Shell: Stand Alone Complex traz um elemento importante no seu nome, mas deixaremos esta análise para um futuro próximo.

Por enquanto, que tal assistir um episódio de Papo Gibi onde falamos sobre o filme americano, garanto que a conversa não ficou tão cabeça, mas bem divertida!

Papo Gibi #07 – Ghost in The Shell

Ghost In The Shell foi tema do nosso papo de bar semanal….alguma coisa aconteceu com a última parte do vídeo e ainda não sabemos o que. #PapoGibiHackeado

Posted by Freakpop – Portal Geek on Thursday, April 6, 2017

Até próxima!

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