Corra! é um filme de terror com uma temática complexa. Ao subverter estereótipos de filmes de terror (onde o personagem negro costuma ser o primeiro a morrer), o diretor Jordan Peele não só cria uma trama fascinante, mas também explora elementos de tensão racial nos EUA para criar momentos assustadores. Aqui vamos apresentar alguns filmes e séries importantes para entender um pouco melhor o que está rolando com nossos vizinhos ao norte.

bruce/ Filme (1967)

Além de ser um dos maiores clássicos da história do cinema, foi confirmado pelo diretor de Corra! como a inspiração principal para o longa. Este filme dos anos 60 traz Sidney Poitier, Spencer Tracy, Katharine Hepburn e Katharine Houghton em uma das primeiras tramas que arriscou apresentar um relacionamento inter-racial de forma positiva.

Na história, Joanna (Houghton) leva seu noivo para conhecer seus pais. Apesar de se considerarem progressivos e liberais, ficam chocados ao descobrir que John (Poitier) é negro. Os pais não se consideram racistas, porém têm dificuldade em aceitar o relacionamento. O filme foi lançado em uma época onde este tipo de relacionamento ainda era ilegal em 17 estados norte-americanos.

Black-ish / Série (2014 – )

Esta divertida série conta a saga da família Johnson. Dre (Anthony Anderson) é de origem humilde e nos dias de hoje é um executivo de publicidade bem-sucedido. Sua esposa Rainbow (Tracee Ellis Ross) é médica. Ambos conseguem oferecer uma vida de privilégio e conforto para seus filhos, algo que constantemente entra em choque com a identidade de vida dura das ruas que Dre vivenciou em sua juventude. Ele teme que por seus filhos viverem em um ambiente predominantemente branco podem perder contato com a cultura negra. Por sorte, sua esposa foi criada por hippies e ajuda a amenizar a situação.

Apesar de ser uma comédia, existem muitas observações astutas em Black-ish sobre a identidade negra nos EUA e os conflitos que podem surgir devido às percepções e preconceitos. Semelhante a Corra!, o primeiro episódio da série questiona onde traçar a linha para as pessoas não se definirem pela raça, mas ainda manter sua cultura relevante.

Dear White People / Filme (2014) / Série (2017)

Você deve ter ouvido falar da série da Netflix alguns tempos atrás quando os cantos mais cancerígenos da internet decidiram destruir a série nas críticas, antes mesmo de sua estreia. Antes de virar série, Dear White People é um filme de 2014, que conta a história de Samantha White (interpretada pela sensacional Tessa Thompson). Ela é uma radialista com a língua afiada na fictícia universidade Winchester onde critica transgressões racistas no campus.

Esta comédia mostra de forma indignada como alguns negros nos EUA acabam limitando seu potencial ou restringindo sonhos por medo de serem vistos de forma negativa pela sociedade, enquanto pessoas brancas vivem uma permissividade preocupante. A série da Netflix mantém o mesmo roteiro marcante e inteligente do longa e recebeu muitas críticas positivas.

Eu Não Sou Seu Negro / Documentário (2016)

Uma obra sensível e complexa que talvez ajude a contextualizar um pouco o filme Corra!. Este documentário narra um manuscrito inacabado de James Baldwin, considerado um dos autores mais prolíficos dos Estados Unidos. Na obra, ele analisa a história do racismo nos EUA e relaciona com seu tempo convivido com grandes líderes do movimento de direitos civis, como Martin Luther King Jr. e Malcolm X.

Trata-se de um documentário pesado, mas ao mesmo tempo fascinante. A temática é uma dura realidade, mas ainda assim existe uma certa beleza ao ver tamanha história trágica narrada por um intelecto tão talentoso quanto Baldwin.

Luke Cage / Série (2016)

Até mesmo uma série baseada em quadrinhos da Marvel traz algo de interessante para nossa conversa. Saindo quente após os sucessos de Demolidor e Jessica Jones na Netflix, Luke Cage trouxe no papel principal um herói negro resolvendo crimes no Harlem, um dos bairros de cultura afrodescendente mais conhecidos dos EUA.

Apesar dos superpoderes, o que realmente tornou Luke Cage fascinante é a forma como o mundo ao seu redor foi construído. Trazendo grandes talentos negros na frente e por trás das câmeras, a série mostra como o racismo sistêmico, a falta de oportunidades e o confronto com o sistema funcionam tão bem quanto um super-vilão colorido. Tudo isto somado à uma trilha sonora fenomenal supervisionada por Mahersala Ali (Moonlight).

Enfim…

É claro que existe outras centenas de séries e filmes que ilustram a questão da tensão racial e este artigo apenas serviu para apresentar ou relembrar alguns bons exemplos. Você se lembra de mais algum? Deixe nos comentários!

Até a próxima!

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