História contada sob prisma feminino encanta com sua simplicidade
e a dor de Maria e de Jesus

O trailer de Maria Madalena já entregava um enredo sensível e de cunho dramático. E não deixou a desejar.

1º motivo: Maria é apenas Maria

Enquanto a história bíblica traduz como Maria Madalena, durante o filme, todos: pai, irmãos, apóstolos, Jesus, a tratam simplesmente como… Maria. Mulher simples, forte, que deixa toda a sua vida apostando na questão: porque não posso seguir Jesus? Sua condição como mulher deveria ser um impedimento para sua fé? Rooney Mara dá uma delicadeza e uma força proporcional à personagem, que usa sua presença e gênero para alcançar outras mulheres que, por conta da supremacia masculina da época, não se sentiam tão próximas ou inclinadas aos discursos do Profeta.

O modo como Maria é retratada também é muito mais crível do que a fábula da prostituta (afinal, séculos após os acontecimentos retratados no filme, que um homem a chamou de prostituta).

2º motivo: a carga pesada de Jesus

É comum vermos em filmes sobre a vida de Cristo que o grosso do sofrimento é apenas durante seu calvário. Joaquin Phoenix está muito bem no papel de Jesus que mostra no olhar as privações da vida escolhida, a dor de ter visões sobre o seu futuro e saber que deve escolhê-lo para alcançar o principal objetivo. Mostra fragilidade, algo que não lembro de já ter visto no cinema (fora as cenas das chibatadas e afins). É um Jesus humano, possível e próximo de quem nós somos, sem aquela aura de divindade forçada.

Por incrível que pareça, os momentos finais de Jesus sendo punido não tem tanta relevância para a trama e não é explorado. Serve na medida certa para mostrar o fato sem precisar nos torturar junto.

3º motivo: os apóstolos

A história sobre os apóstolos sempre puxa sardinha para uns e execram outros. Preto no branco. Pedro é bonzinho e Judas é mau. Os apóstolos de Maria Madalena são bem mais humanos, variando em escalas de cores. Alguns nem sequer aparecem demais, os nomes mal citados. O desenvolvimento pessoal dos que estão em evidência é bem interessante. Antes de Judas trair Jesus, era um seguidor fiel e um bom homem. Pedro, apesar de sempre ser entendido como braço direito de Jesus, também se mostra invejoso e ressentido com a presença de Maria (algo não muito cristão, não?).

4º motivo: não é um filme sobre religião

Maria Madalena sai do lugar-comum e não aborda religião: aborda ensinamentos comuns que deveriam servir para qualquer contexto e base. Quando ela e Pedro estão juntos para espalhar a palavra e chamar as pessoas para o encontro onde Jesus trará o reino dos céus, encontram uma aldeia devastada pelos romanos. Corpos desnutridos praticamente sem vida. Maria não arreda pé e oferece o mínimo de conforto, dando água, carinho e apoio. Pedro, impaciente, não quer ficar: quer encontrar pessoas que poderão reforçar o “exército de fiéis”. Maria coloca em pratica um dos ensinamentos básicos de Jesus de Nazaré: o amor ao próximo.

Aliás, a passagem icônica de Jesus destruindo o templo está presente no filme, reforçando que aqui não é sobre igreja e nem seus pedidos absurdos. Ele chama o templo, por exemplo, de mercado, onde as pessoas devem fazer sacrifícios dando animais e dinheiro para conquistarem seu lugar no paraíso. Em um discurso emocionante, mostra todo seu desgosto pela instituição.

5º motivo: Maria e Judas em uma releitura humanizada

Mulheres lutam contra o estigma de serem inferiores e não é de hoje. Acho que uma figura muito controversa da história é Maria Madalena, retratada como prostituta. No filme, ela não é uma prostituta. É uma filha, irmã, cunhada, tia. É amada pelos familiares, que perpetuam o papel da mulher no mundo (tem que obedecer, ser casta, enfim), mas ainda assim a amam e sofrem quando ela decide peregrinar com os apóstolos.

Maria Madalena não vai pelas teorias de que ela e Jesus teriam um caso. Mostra uma relação de amizade, de suporte. Maria cuida do Profeta, onde seus apóstolos creem que é papel dele de cuidar. Enquanto todos depositam suas esperanças e fé em Jesus, é Maria quem presta atenção, vê a sobrecarga e o seu sofrimento e quem empresta seus ombros.

Judas é o fdp. Mas em Maria Madalena se mostra um homem carismático, sofrido, praticamente quebrado. A cola que o mantém unido é a promessa de que os mortos voltarão de seus túmulos quando o paraíso descer à terra. E, como humano, se decepciona e comete erros.

Interpretações fortes e roteiro interessante

Mostrar a visão da mulher na principal história do Cristianismo, cuja narrativa majoritariamente é masculina (salvo Maria, mãe de Jesus, ora protagonista, ora coadjuvante – e mesmo assim sempre repleta de homens e poucas mulheres retratadas), no momento crucial do papel feminino em Hollywood, com tantas denúncias, empoderamento, movimento #TimesUp e afins, é muito importante para desmistificar certos preconceitos sobre a diminuição de Maria Madalena e que a mulher precisa de uma “redenção através de um homem” para ser valorizada, enquanto ainda recebe pedras por seu passado. A mulher não precisa ser a prostituta da história Cristã. Ela pode ser a protagonista, pode dividir o cenário.

Chiwetel Ejiofor é Pedro e, assim como Judas, interpreta os ensinamentos de Cristo de uma forma meio fanática e começa oficialmente o mansplaining com Maria Madalena #queódio.

Maria Madalena é um filme sensível, dolorido. Controverso. Vale a pena assistir e se emocionar.

Comentários

ResumoMaria Madalena está em exibição nos cinemas
3.9
Critérios
Direção
Roteiro
Elenco
Produção / Fotografia
Observações:
  • Maria é retratada de uma forma bem mais crível. Não existem provas de sua prostituição e, como forma de redenção, este filme apresenta nuances bem interessantes. O mesmo para Judas.
  • Jesus é mostrado sem toda aquela aura divina e incrível. Sente dor, medo, fome. Precisa de carinho, de amor.
  • Nunca chove? Eles dormem no relento e, no filme todo, não cai uma gotinha de água do céu. O mesmo para comida: exceto por uma cena no começo com Maria jantando com a família e uma Santa Ceia bem frugal, ninguém come o.O
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